Escola Mestre Pastinha Muito se tem escrito e discutido sobre a importância pedagógica da capoeira, apontando a sua colaboração no desenvolvimento físico, cognitivo e afetivo de quem a pratica. Contudo é preciso evidenciar o papel social que ela pode exercer como fator de proteção, principalmente, para crianças e adolescentes que vivem em situação de risco pessoal e social.
Trabalho em um projeto - parceria Universidade Federal da Bahia e Grupo Ambientalista da Bahia - que atende a crianças e adolescentes de uma escola pública do Centro Histórico de Salvador, moradores e ex-moradores dessa região, e que, em sua maioria, vivem em condições de total pobreza e desamparo social, que as expõem a violência, as drogas, a fome, a prostituição, ao trabalho e a gravidez precoce, a marginalidade, entre outros fatores de risco.
Nesse projeto, que tem por objetivo realizar o resgate da cultura coletiva e individual desses meninos e meninas, a capoeira se tornou um elemento de grande valor, transformando-se em um dos esteios do projeto.
Mais do que ensinar a jogar capoeira, o nosso trabalho tem se voltado para o resgate da auto-estima e do respeito dessas crianças e adolescentes por si próprios, além de desenvolver neles a confiança de que podem ter algum tipo de controle sobre as suas próprias vidas e ambiente, auxiliando-os, assim, na construção de sentido, de propósito e de futuro. O que, na verdade, fazemos é nos vincular afetivamente, de forma positiva, com nossos alunos, de tal maneira que sejamos vistos como pessoas de referência positiva e de apoio para elas.
E a certeza de que estamos no caminho certo se confirma todas as vezes que esses meninos e meninas nos procuram para falar sobre as suas dificuldades, nos pedir ajuda para resolver seus problemas, nos “confessar” o seu envolvimento com o uso de drogas, nos pedir alguma orientação sexual, etc.
Para nós, é evidente que a permanência dessas crianças e adolescentes na escola, diminui as chances deles ficarem expostos a situações de risco, e iniciem a sua trajetória na direção de si afirmarem, apesar dos percalços que encontram em suas vidas.
Essa é a maior tarefa a que devemos, todos nós, cidadãos brasileiros, nos empenhar no século XXI: dar a nossa contribuição para uma real mudança social. Trancar as nossas portas, fechar as janelas do carro, fingir que não vemos as centenas de pessoas que moram nas ruas, não vai fazer com que tenhamos uma melhor qualidade de vida. É preciso arregaçar as mangas e ajudar, concretamente, a realizar mudanças que garantam o bem-estar de todos. E a capoeira pode e deve contribuir, imbuindo-se e resgatando o papel social que sempre desempenhou ao longo da sua história: ser um instrumento de resistência das populações discriminadas e excluídas.